A esperança cristã é a solução para a crise

Dom Rino Fisichella discursa no encontro da Comunidade Emanuel

ROMA, quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012 (ZENIT.org) – “Cristo, minha esperança, ressuscitou e nos precede na Galiléia”. Evocando o poder do anúncio da Páscoa, Dom Rino Fisichella, presidente do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização, animou os participantes da conferência Em Tempo de Crise, Qual é a Esperança?, organizada pela Comunidade Emanuel, em Roma, no último dia 27 de janeiro.

A partir do kerigma apostólico, o bispo observou que, “há dois mil anos, caminhamos pelas estradas do mundo, repetindo inalteradamente esse anúncio, que é antigo, porque remonta às nossas origens, e é novo, porque compromete a nossa fé de hoje e resolve a originalidade da fé cristã”.

“Cristo ressuscitou de verdade”, continuou o prelado, ressaltando que, se não acreditamos nisto, então “Jesus de Nazaré não passa de um grande evento na história, que trouxe uma forte mensagem de sabedoria, e a Igreja não passa de uma grande empresa que não pode ser qualificada como ‘sacramento e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de toda a humanidade'”.

Falando sobre o presente, época em que “já não se distingue entre a realidade e a fantasia, entre o bem e o mal, entre o que é fruto da fé e o que é meramente produto ideológico”, Dom Rino convidou a questionar por que “o Ocidente mostra sempre com mais ênfase os sintomas de uma loucura generalizada”.

“Há em muitos uma situação patológica de angústia, que vem das dúvidas e termina no desespero, levando a uma forma de depressão que se espalha como um incêndio, especialmente entre os jovens. O que frequentemente as pessoas vivem é uma tragédia que as impede de enxergar uma solução positiva”.

Para se entender o estado de crise, é preciso fazer uma breve revisão histórica: “A grande desilusão toma forma no início do século passado. Como todo início de século, o nosso também parecia um prenúncio de grandes tempos, o progresso se mostrava como a verdadeira conquista para um salto na qualidade de vida”.

Mas duas guerras mundiais, junto com os totalitarismos, com a mentalidade marxista e a vontade de prevalecer uns sobre os outros, mostraram que “a sociedade, mesmo avançada, não conseguiu achar formas de convivência internacional que respeitassem as peculiaridades de cada um”.

Além dos problemas nacionais, “apareceram depois outros globais, planetários”, que levaram alguns analistas a falarem de uma “terceira guerra mundial, travada não nos campos de batalha, mas em seletas sedes das bolsas mundiais”.

“O fracasso das organizações das Nações Unidas mostram a incapacidade de resolver problemas que vão desde os econômicos e financeiros até os problemas de armamento e segurança, além de uma fraqueza política geral que permitiu o predomínio de um poder econômico que, sem princípios éticos, criou uma situação de crise generalizada”.

Nesta perspectiva, não podemos esquecer a evolução da ciência e o espaço aberto pela pesquisa biogenética, que, embora positivo para a pesquisa de doenças hereditárias, introduziu algumas formas de eugenia “que conflitam com as conquistas científicas e com os progressos conseguidos pela sociedade”, criando “conflitos cada vez mais profundos nas determinações éticas da vida social”.

Um exemplo é a “falta de esperança na continuação da vida em situações de sofrimento ou a falta de dignidade que parece se abater sobre as pessoas de idade avançada”, levando muitos a considerar sempre mais frequentemente a “auto-determinação até mesmo da morte, como um fardo do qual livrar-se aos primeiros sintomas da velhice”.

Estamos diante, portanto, de “uma expansão dos direitos individuais que leva a relegar toda decisão ética ao âmbito privado” e que evidencia a natureza da crise que estamos vivendo: cultural e antropológica.

“O homem, ao se acreditar totalmente dono de si próprio e independente de toda autoridade, não é mais capaz de encontrar a si mesmo, e esse homem cada vez mais no centro de tudo, incapaz de alcançar a verdade porque se priva de toda base, carece apenas da última peça para se tornar plenamente autônomo: a separação de Deus”.

O produto de tudo isso “é um homem confuso, sem certezas, incapaz de encontrar uma saída real do túnel da crise, porque o seu desejo de esperança se choca com muitas formas que a negam e a contradizem”.

“O mundo precisa de uma esperança viva”, diz Fisichella, relembrando as palavras finais da Gaudium et Spes. Mas “qual esperança?”, como indaga o título do encontro. “A esperança cristã”, responde o bispo. “A presença de Cristo na vida de cada crente, mistério pleno e total que Deus quis revelar”.

“Na perspectiva cristã, a esperança não é um fruto da consciência do homem, mas um ato pleno, total e gratuito do amor de Deus, que consiste no chamado à salvação através da participação na sua própria vida”.

Esta esperança, no entanto, não surge na hora do sofrimento e do desânimo, “ou não se distinguiria do sentimento genérico do agarrar-se a alguma coisa como um último recurso para o mal”. Ao contrário, a esperança cristã tem duas “irmãs mais velhas”, como escreveu Peguy, “que jamais a abandonam: a fé e a caridade”.

Neste período, em que “assaltaram o nosso vocabulário palavras como precariedade, degradação, crise, entra em jogo a missão dos crentes de testemunhar a esperança”, ou a capacidade “de superar as dificuldades do presente descobrindo que já temos a posse de um grande dom”.

Há uma necessidade, então, de “novos profetas”, que, em nome da Igreja, assumam o compromisso petrino de estar “sempre prontos a dar razão da esperança presente em vocês a quem quer que a peça”.

A esperança cristã, se vivida na sua dimensão comunitária, é a verdadeira forma da Nova Evangelização: “Não é um assunto privado, mas ação de toda a comunidade crente, que, desta forma, se mostra como um sinal para a humanidade inteira e nos permite entender por que os crentes devem esperar por todos e pela salvação de todos”.

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.