A Dura missão de servir – EB

Revista:
“PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

Autor:
Estevão Bettencourt, Osb

Nº 196, Ano
1976, Pág. 137

A Declaração sobre questões de Ética
Sexual, publicada pela S. Congregação para a Doutrina da Fé e apresentada no
corpo deste fascículo, tem suscitado intensa celeuma na opinião  pública. A Igreja foi acusada de não saber
adaptar-se à “revolução sexual” que nos últimos tempos modificou o
comportamento da sociedade (…) Pergunta-se, pois: por que terá a Igreja emitido
tal pronunciamento, em aparências desatualizado e chocante?

– Para se
entender devidamente tal Declaração, é mister levar em conta a evolução da
doutrina moral nos últimos anos, mesmo em escolas católicas. Na Universidade de
Friburgo (Suíça), por exemplo, o Prof. S. Pfürtner ensinava em 1972:

 

“Há sempre
uma lei moral intocável, a qual, por conseguinte, deve reinar sempre e em toda
parte: o amor unido à razão (…) Todas as normas materiais, mesmo no setor da
moral sexual, provêm do homem e do seu esforço de estabelecer uma ordem
razoável na sua vida. Disto se segue que, sempre que um preceito deixe de ser
razoável na sua aplicação e de servir ao bem individual e social do homem,
deixa… de ser um preceito moral (…) Todos os mandamentos e todas as
instituições só têm sentido em vista do homem. O homem e sua felicidade jamais
lhes devem ser sacrificados (…) Todos os homens têm direito à felicidade. O
direito à felicidade sexual é uma parte desse direito humano fundamental”
(“Qu’est-ce qui reste valabre aujourd’hui? Considérations à propôs de la morale
sexuelle”, em “Choisir”, março 1972, Doc. Nº 1, 6.8.9.).

Estes
princípios tornam o homem (ou, melhor, o eu individual) critério absoluto do
bem e do mal. Rompem a vinculação da criatura com o Criador; embora pareçam
libertar o homem, fazem-no escravo de suas paixões e da criatura.

É este o
fundo de cena imediato do pronunciamento da Santa Sé.

A Igreja
voltou a afirmar o que sempre afirmou, repudiando relações sexuais
pré-matrimoniais, o homossexualismo e a masturbação. A Igreja sabe que a
desenfreada liberdade sexual está longe de significar progresso, mas é, antes,
regresso no curso dos costumes humanos; em vez de favorecer a dignidade humana,
concorre para o aviltamento da pessoa. Grande é o número de neuroses  e de moléstias físicas, notável também o
percentual de lares desfeitos em conseqüência do apregoado libertinismo sexual.

Nem se pode
dizer que a ciência contemporânea desabone os preceitos da ética cristã. Os
psicólogos modernos afirmam, de um lado, que a sexualidade é um potencial que
muito pode contribuir para a felicidade e o engrandecimento do ser humano, mas
de outro lado, reconhecem que o sexo pode desencadear tremendas forças
destrutivas da personalidade. A própria psicanálise pôs em relevo o liame
existente entre  Êros (amor e Thánatos
(morte): ninguém ignora que o instinto sexual, entregue a si e não integrado no
conjunto dos valores da personalidade, avilta o ser humano e é causa de
infelicidade. Esse instinto tende não raro a se tornar independente do amor
(que é sempre querer bem ao outro), perdendo assim a sua nota tipicamente
humana para se tornar bestial. O sexo, na criatura humana, faz parte de um
contexto em que a inteligência e a vontade devem predominar soberanamente. Eis
por que a Igreja ousa lembrar ao mundo de hoje a necessidade de conter o uso do
sexo dentro de certas normas éticas.

Fazendo
isto, a Santa Sé está longe de ceder à sexofobia ou a tabus. Ao contrário,
nenhuma filosofia dignifica tanto o matrimônio e a sexualidade quanto a
filosofia cristã; segundo o Evangelho, a vida conjugal é um sacramento
permanente, desde que observe as leis do Criador. O que a S. Igreja tem em mira
mediante o seu pronunciamento corajoso, é precisamente assegurar a liberdade e
a dignidade do homem no uso do sexo; interessa-lhe algo a que esta
essencialmente ligada a grandeza do ser humano. Foi para garantir a
“civilização do amor” (Paulo VI), em benefício do próprio homem, que a Igreja
disse o seu Não decidido em dezembro.

Se este
serviço da Igreja não foi por todos devidamente entendido, ele será certamente
útil e frutuoso. Nem o sacrifício de Cristo – que neste mês de abril mais uma
vez celebramos durante a Semana Santa – foi devidamente compreendido; todavia é
certo que redundou em salvação para o mundo. Como Cristo, a Igreja também é
alvo de contradição (cf. Lc 2, 34); se isto é doloroso, também é motivo de
consolo, pois tal contradição é sinal de continuidade com a missão do Mestre, é
sinal de autenticidade. A Igreja continua em nossos dias a obra do Senhor
Jesus, que foi Cruz e Ressurreição em favor dos homens e para a glória do Pai!

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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