A “difícil” opção: Ao médico ou ao benzedor?

medicina_religiao_grandeÉ grande o número de pessoas que vão procurar benzedores e curandeiros para se tratar ou livrar de males físicos e psíquicos. Não se pode negar que essa “medicina livre” tenha seus eleitos positivos em favor da saúde do paciente. Todavia note-se que a sua ação é psicoterapêutica. O curandeiro (ou médium ou ministro “messiânico”) desencadeia no seu cliente uma atitude de otimismo, paz e confiança, que concorrem fortemente para inverter o processo psicológico donde muitas vezes se deriva o mal do paciente. As moléstias que os curandeiros atingem, são geralmente moléstias funcionais, cujo fundo é um conflito ou bloqueio psíquico. O poder da sugestão (consciente ou inconsciente) é enorme, como comprovam numerosas experiências feitas sobre enfermos. O doente que recorre a um curandeiro, é particularmente sugestionável, pois muitas vezes olha para a bênção ou o passe como para a sua última tábua de salvação; esta lhe é apresentada em termos de “mística” impressionante, depois que o paciente procurou em vão a saúde entre os recursos da ciência médica.

Embora os centros espíritas e outros ambientes de cura religiosa possam contribuir para o alívio dos seus pacientes, não se pode recomendar nem aprovar a consulta a tais centros, pois na verdade a cura por sugestão obtida em tais lugares contribui para alienar poderosamente o paciente; este, doravante, se julgará dependente da entidade do Além em nome da qual tiver sido dada a bênção. Os fiéis católicos têm a força redentora de Cristo presente nos sacramentos e na oração; quem necessita de tratamento psicológico, procure-o entre os profissionais da medicina, que podem curar sem alienar o paciente. Ademais a consulta a um curandeiro ou ministro “messiânico” é, ao menos indiretamente, a prática de falso culto religioso – o que é intolerável da parte de quem tem consciência da fé que professa.

Leia mais: O que dizer sobre adivinhos e benzedeiras?

Comentário:

Nota-se que vão tomando vulto crescente as seitas e os grupos religiosos que em nome da Divindade e do além anunciam curas de doenças. Além dos diversos centros de espiritismo e terreiros de macumba, pode-se mencionar a chamada “Igreja Messiânica” (Sheiko-No-Iê), cujos ministros oram, de modo a obter a cura dos enfermos em termos que muita  gente julga milagrosos. Diante destes fatos, não poucas pessoas, mesmo católicas, vão procurar alívio para seus males nesses grupos religiosos. Há fiéis católicos que perguntam se não podem ir à Igreja Messiânica ou ao centro espírita só para pedir curas, sem ter a intenção de aderir às crenças professadas pelo ministro ou médium respectivo.

Eis o problema que vamos abordar nestas páginas.

De antemão desejamos acentuar que não tencionamos negar a Deus o poder de fazer milagres ou curas maravilhosas; o Criador e Senhor da natureza pode ultrapassar as leis das criaturas e realizar portentos segundo o seu beneplácito; as Sagradas Escrituras – em particular, o Evangelho – atestam tais milagres efetuados pelo Senhor Jesus. Todavia deve-se acentuar que os milagres de Deus têm sempre um sentido de Palavra ou Mensagem para os homens; constituem uma resposta sábia de Deus a um contexto religioso digno; nunca são meros “shows” ou ostentação de poder da parte do Senhor Deus. O que impressiona o cristão nos milagres de Deus, não é só o caráter portentoso dos mesmos, mas também, e necessariamente, o valor de mensagem de que se revestem estes feitos maravilhosos.

Ora, nos muitos relatos de “curas milagrosas” hoje esparsos, nota-se que se dá atenção principalmente ao caráter portentoso do fenômeno; desde que essa índole maravilhosa se verifique, costumam os “devotos” atribuir o fato a alguma intervenção do Além (podendo esse Além ser concebido em termos de espiritismo, de umbanda, de “Ciência Cristã”, de Pentecostalismo, de Sheiko-No-Iê…). Entre os “devotos”, pouco se levam em conta as conclusões da psicologia e da parapsicologia de nossos dias, que explicam grande número de curas maravilhosas como consequências de processos psicológicos desencadeados tanto no enfermo como no respectivo médium ou curandeiro. – Em vista do ecleticismo religioso que assim se origina, proporemos algumas noções que poderão projetar luz sobre a problemática.

1. Doenças psicossomáticas

Quem examina os casos de doenças curadas pelos médiuns e curandeiros, verifica que são, em grande maioria, moléstias funcionais ou então “doenças sem causa” (dores, paralisias, fraqueza geral…). Tais moléstias estão estreitamente associadas a estados psíquicos; são psicogênicas ou, ao menos, fortemente psicossomáticas.

De modo geral, deve-se dizer que o ser humano é um só todo em que o físico e o psíquico se interpenetram mutuamente. Em consequência, perguntam muitos médicos se a origem de graves infecções é tão somente a bacilo ou o vírus respectivo; não se deveria, antes, afirmar que tais moléstias não são senão sinais e consequências de um estado de desequilíbrio total (psíquico e físico) do paciente? – Neste caso, não se deveria falar de doenças abstratamente, mas, sim, de pessoas doentes, levando-se em conta o quadro geral do paciente (temperamento, vida passada, ocupações e interesses do momento…). Diz o Dr. René Biot: “Não há doenças; estas não são coisas existentes em si… As bactérias talvez não sejam mais do que as testemunhas de um processo patogênico infinitamente mais sutil” (“Vers l’unité de la Médicine”, p. 336).

Os estudos psicanalíticos confirmam tal conclusão: os conflitos psíquicos abrem, muitas vezes, a porta às doenças. O fato de que, dentre milhares de pessoas que vivem em ambientes contaminados por bacilos, somente algumas contraiam a doença respectiva (nem sempre ao menos resistentes do ponto de vista físico) leva a pensar seriamente sobre a influência do estado psíquico do sujeito sobre a sua resistência física.

De modo especial, são doenças psicossomáticas:

a) as úlceras do estômago. Em 1950 fez-se um inquérito em Clínica sueca a respeito de 108 doentes de úlcera estomacal. Donde resultou que 54 dentre eles sofriam de conflitos mentais agudos, 29 sofriam de conflitos mentais crônicos, 22 apresentavam sintomas de desequilíbrio psicológico sem conflito, 3 apenas não manifestavam sintomas psicopatológicas.

Sabe-se, de resto, que grande número de perturbações digestivas têm por sede pessoas que sofrem por não ser amadas.

b) As moléstias cutâneas (urticária, verrugas, eczemas…) são geralmente o motivo de fama de todo curandeiro principiante.

c) A asma, o hipertiroidismo, os fibromas (…)

d) Além destas, há as doenças “sem causa”: enxaquecas, nevralgias, palpitações, insuficiência hepática, paralisias parciais… O exame fisiológico do paciente nada descobre de anormal no mesmo; parece inútil querer então tratar do fígado, do estômago, do coração, pois estes órgãos estão sadios. O que o terapeuta deve atingir em tais circunstâncias, é o mesencéfalo ou o sistema nervoso do paciente; e para tanto, ninguém está mais habilitado do que o próprio paciente.

Vem a propósito a seguinte notícia de nossa imprensa:

“O Dr. Maurício Knobel, psicanalista argentino, presidente do Colégio Internacional de Medicina Psicossomática, conta o caso de um pediatra, ex-aluno seu, que sempre desconfiou muito e resistiu à compreensão da visão psicossomática. Esse médico foi chamado numa noite à casa de uma família para atender ao filho, que estava com forte dor de garganta. Era a sétima vez que isso acontecia naquele inverno. O médico tinha que se levantar tarde da noite e ir ver o cliente. Ao chegar, perguntou brincando:

– Como é? Por que você tem tanta dor de garganta?

À inocente pergunta, ouvir surpreso a seguinte resposta

– Quando fico doente, papai e mamãe não brigam.

Na verdade, seus pais vivem brigando e não se davam bem. A partir daquele episódio com o menino, o pediatra confessou ao Dr. Knobel que começou a dar maior importância “a essas coisas de que o Sr. falava”. Encaminhou o casal à orientação psicológica – o que resultou, depois de algum tempo, na melhoria do relacionamento familiar. O menino não teria mais dor de garganta” (“O Globo”, Suplemento de domingo 19/X/1975, p. 2).

Prossigamos agora a nossa exposição.

2. Cura psicossomática

1. Como dito, o paciente em numerosos casos (principalmente nos mais fortemente psicossomáticos) é causa da sua própria doença, ainda que não o saiba ou mesmo recuse a hipótese de ser tal. O mesmo, por conseguinte, pode ser também a causa de sua própria recuperação. Para tanto, basta que o processo psicológico seja invertido; e, a fim de que isto aconteça, o paciente precisa muitas vezes de auxílio ou mesmo de um choque.

É neste contexto que se situa oportunamente a função do curandeiro. Este, não tendo estudado a medicina científica, não se pode interessar muito pelo diagnóstico científico das moléstias. Ele tem que visar muito mais ao enfermo do que à enfermidade como tal. A essência da sua arte consiste em estabelecer um contato de pessoa a pessoa com o seu consulente, consulente que, por via de regra, está cheio de expectativas. Não estando ligado às normas da medicina científica, o curandeiro pode com habilidade adaptar-se à personalidade do seu paciente, procurando “simpatizar” com ele (“simpatizar” no sentido etimológico de “padecer com…, identificar-se com quem sofre”); será autoritário para com uns, paterno e bondoso para com outros, tornando-se, em suma, para todos “o homem do momento”. Justamente por não possuir formação científica, o curandeiro facilmente crê possuir um dom extraordinário – o das curas – assim como a missão divina de utilizar essa graça em favor do próximo.

2. Ora é precisamente dessa figura de amigo simpático, “místico”, famoso por “prodígios” já operados, que o paciente muitas vezes necessita. Este não vai procurar o médium em consequência de conclusões científicas ou raciocínio rigoroso, mas, sim, movido por fatores emocionais; o que o impressiona, é a pessoa do curandeiro, tida como extraordinária, dotada de poderes taumatúrgicos e de intuições místicas. É a pessoa do médium, e não o remédio, que age sobre o paciente; verifica-se até que o mesmo remédio aplicado ao paciente por outra pessoa que não o curandeiro “tal”, não produz efeito algum.

Mais precisamente: note-se que o estado de ânimo de quem vai consultar um médium é bem diferente do estado de quem se dirige a um médico propriamente dito. Quem vai ao curandeiro, muitas vezes se acha desiludido dos remédios da medicina; está psiquicamente abatido… Ouviu repentinamente falar de tal ou tal “milagreiro”, a quem numerosas curas são atribuídas. Aceita então com avidez a hipótese de vir a ser também beneficiado por esse “emissário do Alto”; predispõe-se assim a ser influenciado por este; perde o seu senso crítico e toma a atitude de uma criança, que não sabendo como salvar-se, confia cegamente nos poderes maravilhosos de quem é maior.

3. Na verdade, os recursos que o curandeiro aplica ao seu paciente, são, do ponto de vista médico, pouco ou nada eficazes; trata-se de águas lustrais, chás, banhos, gestos rituais… Tais recursos são, de resto, aplicados (com poucas diferenças) a todos os tipos de pacientes. São, por si, inadequados para resolver a situação. Todavia são suficientes para mover as forças poderosíssimas do subconsciente dos enfermos, forças essas que influem decisivamente sobre a saúde ou a doença. Assim é que a visita a um curandeiro pode obter o efeito desejado, não pelo valor dos recursos aplicados, mas porque estes exercem a função de catalisar, isto, é de acelerar um processo psíquico já iniciado no paciente. Este processo  psíquico é que provocará finalmente a cura (real ou aparente, duradoura ou transitória…; isto depende das circunstâncias de cada caso) da moléstia que acabrunha o consulente.

Assim se explica que em não poucos casos o encontro do enfermo com o curandeiro provoque realmente a restauração (ao menos aparente) da saúde. O tratamento então é psíquico, e não somático. Em muitos casos o paciente se sente aliviado, mas não está curado; a raiz de seus males não foi atingida pelo contato com o benzedor.

4. Merece ainda atenção o seguinte: muitas das pessoas que dizem ter sido beneficiadas por curandeiros ou médiuns, são pessoas cujas doenças eram um tanto indefinidas; achavam-se fracas, mal podiam ficar em pé, sofriam de dores de cabeça, estavam na perspectiva de ser operadas e foram poupadas disto, não podiam mover o braço… É muitas vezes isto que se lê nos noticiários populares de curas maravilhosas. Que tais fórmulas não são científicas, dado o seu teor vago; perguntar-se-ia: achavam-se fracas por quê?… sofriam de dores de cabeça precisamente onde, quando? … iam ser operadas de quê, segundo qual médico? … não podiam em hipótese alguma mover o braço?… e desde quando ? Não raro acontece que tais pacientes de doenças mal definidas ou “sem causa” vão procurar um médico para receber um tratamento  adequado; o clínico, depois de atento exame, declara ao paciente que este não está sofrendo de moléstia alguma; alguns médicos acrescentam mesmo oportunas explicações sobre “imaginação, neurose, psicose, males funcionais”, etc., no intuito de ajudar o paciente a se libertar do seu sofrimento. Embora tais doenças não tenham causa orgânica, não são doenças imaginárias, mas, sim, moléstias reais, que fazem sofrer duramente os respectivos pacientes. Tais pacientes esperam do médico não só a explicação, mas principalmente o alívio de suas enfermidades… Diante da explicação científica que o médico lhes dá, assegurando-lhes que nada têm de orgânico, muitos pacientes se indignam como se estivessem sendo tratados como loucos; vão então consultar mais dois ou três médicos, dos quais ouvem a mesma explicação científica. O paciente nessas circunstâncias exaspera-se, mormente se ninguém se lembra de lhe sugerir que vá procurar um tratamento psicológico. Sentindo-se mal e não encontrando solução por parte dos médicos, o enfermo começa a apelar para fatores transcendentais: ou se julga possesso do demônio ou perseguido por um “espírito encostado”… Muitas vezes, a essa altura uma pessoa amiga sobrevem, dizendo  conhecer um curandeiro ou benzedor de grande eficácia, autor de numerosas curas maravilhosas… Tem-se assim mais um cliente para os médiuns e benzedores. Estes, mediante sua influência pessoal comunicada através de ritos próprios, vão agir não sobre o físico, mas sobre o psíquico do paciente (pois é o psíquico que está nervoso e impressionado), conseguindo bons resultados; farão assim as vezes de um psicólogo ou psicoterapeuta. Completemos estas ponderações mediante algumas notas sobre

3. A força da sugestão

A palavra “sugestão” vem de sub-gerere e significa “levar, transportar alguma coisa para baixo ou sob…”; vem a ser uma insinuação ou também uma subordinação. Em psicologia, a sugestão ocorre quando se leva ao subconsciente de alguém uma ideia que irá abrindo caminho no consciente desse sujeito e poderá tornar-se uma persuasão ou convicção. A sugestão pode permanecer sempre no subconsciente e, não obstante, exercer enorme influência sobre o comportamento do sujeito respectivo. Este, sem o saber, estará agindo sob a força de uma sugestão que lhe foi comunicada e que talvez, em primeira instância, ele tenha explicitamente rejeitado. Imagine-se, por exemplo, um amigo que diga a seu amigo: “Como você está mal!” Este, ouvindo tal juízo, protestará e afirmará o contrário. Mas, aos poucos, poderá ir-se sentindo indisposto e crer que está padecendo de algum mal sério, mormente se em seu íntimo estiver predisposto a tanto. Importa notar que a ideia sugerida muitas vezes vai tomando vulto e mesmo lugar primacial na mente de alguém apesar da resistência que essa pessoa lhe queira opor. De modo especial, o ser humano repele a ideia de ser vítima de alguma sugestão ou de não ser mais ele mesmo no seu modo de pensar ou agir; ora, apesar dessa repulsa espontânea, o poder da sugestão é imenso. São verídicas as palavras de Claude Bernard, principalmente quando se tem em vista o subconsciente: “O homem pode muito mais do que ele julga poder”.

Em questões de saúde e doença, a força da sugestão é notória.

Com efeito. Sabe-se quão benéfico sobre um processo de recuperação da saúde é o otimismo do paciente; uma boa notícia comunicada a este pode logo desencadear melhoras fisiológicas.

Também são conhecidas os casos em que “remédios milagrosos” produziram efeitos altamente positivos em pacientes gravemente enfermos; tais remédios milagrosos, uma vez analisados, não revelaram nenhuma propriedade particular. Refere-se mesmo o adágio irônico: “É preciso apressar-se em tomar os remédios novos enquanto eles curam”.

O Dr. Matthieux chegou a realizar uma experiência assaz cruel em seu sanatório de tuberculose. Anunciou aos enfermos que acabara de ser descoberto o antídoto da tuberculose, que os haveria de curar imediatamente. Depois de ter provocado e preparado os ânimos dos doentes durante um período de tempo razoável, o médico injetou-lhes, por dias seguidos, um pouco de água salgada, que ele chamava pelo nome mágico de antifimose. Então os pacientes obtiveram consideravelmente, os doentes começaram a sentir apetite devorador, que os fez subir de peso numa média de três quilos em poucos dias. Infelizmente, porém, um dos enfermos percebeu que se tratava de um logro e que o médico nada tinha de especial para curá-los. Logo as melhoras nada tinha de especial para curá-los. Logo as melhoras cessaram e todos os sintomas da moléstia reapareceram em condições mais graves, porque os pacientes estavam desanimados.

Pode-se fazer menção também dos cataplasmas que outrora eram aplicados com frequência, obtendo, como se dizia, bons resultados. A malícia dos comentadores afirma que tais efeitos positivos se devem ao fato de que cada cataplasma exigia meia-hora de preparação; durante essa meia-hora o doente tinha a oportunidade de ansiar pelo tratamento e de se compenetrar da eficácia do mesmo!

Narra o Dr. Maurice Colinon em seu livro “Les Guérisseur”, que, a título de experiência, se dedicou ele mesmo durante alguns meses à prática do magnetismo (espécie de curandeirismo pela aplicação das ondas magnéticas do curandeiro). Aconteceu-lhe então o fato que o próprio Colinon assim descreve:

“Em certa época, fiz-me curandeiro a título benévolo. Então muitas vezes ouvi meus pacientes descrever as sensações diversas que eles atribuíam ao meu “fluido” pessoal. Uns experimentavam brusco calor; outros, ao contrário, um “vento frio”. Outros ainda sentiam “como que pequenas pontadas” (…). Se de fato existe fluido humano, é preciso reconhecer que as manifestações do meu fluido eram estranhamente dissemelhantes segundo os indivíduos que se beneficiavam dos seus efeitos! Mas será que o fluido existe mesmo? Muitas vezes realizei uma experiência assaz significativa neste setor. Todas as vezes que um paciente declarava “sentir nitidamente o meu fluido”, eu afastava lentamente as minhas mãos do seu corpo e chegava a cruzá-las sobre as costas; não obstante, a pseudo-sensação não diminuía. A ideia de realizar esta prova veio-me depois que servi de assistente a um hipnotizador que fazia essa demonstração sobre o palco, sem ser jamais desmentido. Ele intencionava assim demonstrar que os seus clientes obedeciam a uma simples sugestão de palavras” (obra citada, p. 93).

São estes alguns exemplos de como é influente a sugestão. Quem tem consciência disto, compreende melhor certos fenômenos (mesmo curas) portentosas sem ter necessidade de recorrer ao Além para explicá-los.

Podemos agora responder à pergunta inicial deste artigo:

4.  (…) Só para ser curado?

É frequente a pergunta: Será que um fiel católico não pode ir a um centro espírita ou a alguma assembleia de culto  não católico só para tentar obter a cura de uma doença, sem tencionar aderir às crenças espíritas ou outras que inspiram tal culto?

Em resposta, observemos:

– Deus não se torna mais presente aos homens pelo espiritismo ou por algum culto não cristão do que pelos sete sacramentos instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo.

– Nem os anjos e santos se tornam mais presente num centro espírita ou no culto Sheiko-No-Iê.

– Os cultos não católicos oferecem a ocasião de orar pelos enfermos. Ora a prece não é específica nem exclusiva de assembleias espíritas ou “messiânicas”; ao contrário, é praticada também em assembleias católicas. É de notar que os grupos carismáticos ou grupos de oração no Espírito Santo constituídos por fiéis católicos, se interessam especialmente pela prece em favor dos enfermos, até mesmo com o gesto de imposição das mãos (no catolicismo, este gesto nada tem de mágico ou de eficaz por si mesmo, mas é um símbolo de oração e de transmissão da graça).

– O que os cultos não católicos oferecem em elevado grau, é uma ação psicoterapêutica, que os clientes costumam aproveitar em benefício da sua saúde. Sim; a ambientação, o ritual, as palavras de qualquer forma de curandeirismo religioso penetram fundo no consciente e no subconsciente dos respectivos pacientes. Tal psicoterapia pode ser mais eficaz do que a de um profissional legitimamente estabelecido, pois o poder dos motivos religiosos é imenso.

Todavia essa psicoterapia não atinge o fundo do problema do seu paciente; apenas o transfere. O cliente  de um centro espírita, ainda que diga guardar a sua fé católica, torna-se dependente de um mundo imaginário e das forças (pessoais ou neutras) em nome das quais foi obtida a presumida cura. O paciente sente-se, de então por diante, devedor a esta ou aquela entidade superior que, como lhe disseram, o livrou do mal e quer ser homenageada para continuar a livrá-lo de males.

Por isto, em hipótese alguma se pode conceber que um fiel católico procure uma assembleia religiosa não católica para pedir curas. Volte-se para Deus com amor e confiança, ciente de que Ele é Pai; recorra aos meios de salvação do corpo e da alma existentes na Igreja de Cristo. E não negligencie a psicoterapia, pois a fé não exclui os recursos da razão e do saber humano, mas, ao contrário, os recomenda e favorece. – Além do mais, o recurso ao espiritismo ou à Igreja Messiânica vem a ser, ao menos indiretamente, a prática de um culto que não se coaduna em absoluto com as concepções da fé católica; isto é intolerável aos olhos de um autêntico discípulo de Cristo.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
Autor: Estevão Bettencourt, Osb
Nº 193, – Ano 1976, p. 3

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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