A cruz, sinal do cristão – EB (Parte 2)

tumblr_m96q616gUG1rqthauo1_500Jesus deve ter permanecido três horas pendente da Cruz antes de morrer. São Marcos (15,25) diz que Jesus foi crucificado “na terceira hora”; compreendamos, porém, que “terceira hora”, no cômputo dos romanos (que Marcos adota), correspondia não a 60 minutos, mas ao período que ia das 9 às 12 horas da manhã.¹ São João dá a entender que Jesus foi crucificado à Sexta hora (Jo 19, 14), entendendo Sexta hora no sentido não dos romanos, mas dos judeus, que numeravam hora por hora a partir da primeira hora (correspondente às nossas  seis horas da manhã).² Diremos então, conciliando Mc e Jo entre si, que Jesus foi crucificado no fim da terceira hora dos romanos, ou seja, perto da sexta hora (meio-dia) dos hebreus. E morreu à nona hora, conforme Mc 15, 34, isto é, no começo do período que ia das 15 às 18 horas nossas (o que equivale aproximadamente às nossas 3 horas da tarde).

A agonia de Jesus na Cruz não durou mais do que três horas aproximadamente, pois o Senhor estava extenuado pelos suplícios anteriormente padecidos (flagelação, coroação de espinhos, carregamento da cruz, além do suor de sangue no horto das Oliveiras).

Importa-nos agora considerar o modo como os cristãos consideraram a cruz nos primeiros séculos da Igreja.

O sinal da Cruz

1. Para as Testemunhas de Jeová, a Cruz de dois braços, como hoje a conhecemos, só começou a ser usada pela Igreja Católica no século IV. O acontecimento que terá deflagrado tal uso, dizem eles, é a pretensa visão da Cruz atribuída a Constantino Imperador em 28/10/312.³ Tal visão é tida como lendária pelas Testemunhas, de mais a mais que Constantino em 312 ainda era adorador do deus Sol, cujo emblema era a cruz.

Após esta visão de Constantino, os cristãos foram usando o símbolo da Cruz no intuito de facilitar aos pagãos o ingresso no Cristianismo, pois a Cruz era  (dizem as Testemunhas) usual entre os cultores dos deuses.

2. Ora quem estuda a liturgia antiga, a arqueologia e a história, afirma tranquilamente que é falsa a teoria das Testemunhas. Existem documentos que comprovam o uso do símbolo da Cruz entre os cristãos muito antes do Constantino.

Assim, por exemplo, o escritor  Tertuliano (+ pouco antes de 220) atesta:

“Quando nos pomos a caminhar, quando saímos e entramos, quando nos vestimos, quando nos lavamos, quando iniciamos as refeições, quando nos vamos deitar, quando nos sentamos, nessas ocasiões e em todas as nossas demais atividades, persignamo-nos a testa o sinal da Cruz”(De corona militis 3).

Dia ainda Hipólito de Roma (+ 235/6), descrevendo as práticas dos cristãos do século III:

“Marcai com respeito as vossas cabeças com o sinal da Cruz. Este sinal da Paixão opõe-se ao diabo e protege contra o diabo, se é feito com fé, não por ostentação, mas em virtude da convicção de que é um escudo protetor. É um sinal como outrora foi o Cordeiro verdadeiro; ao fazer o sinal da Cruz na fronte e sobre os olhos, rechaçamos aquele que nos espreita para nos condenar” (Tradição dos Apóstolos 42).

As Atas dos Mártires, por sua vez, dão a saber que os mártires se persignavam com o sinal da Cruz antes de enfrentar a luta final.

É também antigo o anagrama

Tal figura, que tem a forma de Cruz, exprime exatamente as virtudes atribuídas à Cruz pelos cristãos: Luz (Phos) e Vida (Zoé); cf. Jo 1,4.

3. É de notar também que já nos escritos  do Novo Testamento a Cruz é símbolo de algo de muito valioso, ou seja, da virtude da penitência; esta consiste em dominar as paixões desregradas e sofrer por amor de Cristo e em  união com Cristo. Seria preciso apagar muitos versículos do Novo Testamento para dizer que a Cruz é um símbolo introduzido no século IV na vida dos cristãos. Tenham-se em vista, por exemplo:

Mt 10,38: “Aquele que não toma a sua cruz e me segue, não é digno de mim”. Cf. Mc 8, 34; Lc 9,23; 14,27.

Mt 16,24: “Disse Jesus aos seus discípulos: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”.

Gl 2, 19: “Pela Lei morri para a Lei, a  fim de viver para Deus. Fui crucificado com Cristo”.

Gl 5, 24: “Os que são de Cristo Jesus, crucificaram a carne com suas paixões e suas concupiscências”.

Gl 6, 14: “Quanto a mim, não aconteça gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”.

O sinal da Cruz é o sinal dos cristãos ou o sinal do Deus vivo, de que fala provavelmente Ap 7, 2, fazendo eco a Ez 9,4:

“Um anjo gritou em alta voz aos quatro Anjos que haviam sido encarregados de fazer mal à terra e ao mar: “Não danifiqueis a terra, o mar e as árvores, até que tenhamos marcado a fronte dos servos do nosso Deus”.

O fato de que a Cruz era instrumento de suplício dos malfeitores explica que não se encontre o símbolo da Cruz nos mais antigos monumentos cristãos. Todavia no hipogeu (sepultura subterrânea) dos Aurélios em Roma, datado de fins do século II ou começo do século III, acha-se um afresco que apresenta um personagem apontado respeitosamente o sinal da Cruz.

Durante os três primeiros séculos, que foram de perseguição aos cristãos, encontram-se na arte cristã alguns símbolos que lembram veladamente a Cruz. Assim, por exemplo, a âncora, que representava, ao mesmo tempo, a cruz e a esperança decorrente da Cruz (cf. Hb 6, 19):

A âncora se encontra nos recintos mais antigos das catacumbas romanas; está gravada em lápides de sepulcros ou pintada sobre monumentos que podem ser atribuídos ao século I.

O tridente, que tem semelhança com a Cruz, é um pouco menos antigo; foi símbolo dos cristãos assaz frequente nos três primeiros séculos.

O mesmo se diga da letra T, tau, que Clemente de Alexandria no século III chamava tou kyriakou semeiou typos, figura do sinal do Senhor (Stromateis VI 11).

Notemos ainda o símbolo resultante da sobreposição das letras gregas X e P:¹

Este monograma lembrava Cristo e a Cruz e foi representado no lábaro ou estandarte de Constantino. No fim do século IV, tomou a forma que mais lembrava a Cruz:

A conversão de Constantino ao Evangelho em seu leito de morte e a profissão de fé cristã dos Imperadores subsequentes fizeram desaparecer o suplício da Cruz. Esta se tornou então unicamente sinal da Paixão vitoriosa do Senhor. Conscientes deste seu valor, os cristãos ornamentavam a cruz com palmas e pedras preciosas.

Estes elementos de literatura, história e arte antiga atestam sobejamente que a Cruz, como símbolo cristão, é algo de genuinamente neotestamentário. Seu valor de sinal sagrado, típico do discípulo de Cristo, já é incutido pelos Evangelistas e por São Paulo. A vivência e a iconografia dos cristãos, desde o século I, deram a este símbolo sagrado um lugar de escol entre as expressões da fé cristã. Donde se vê que é totalmente descabida a teoria de que a Cruz é um símbolo pagão introduzido por influência do paganismo na Igreja e destinado a ser eliminado do uso dos cristãos. Rechaçar a Cruz de Cristo é rechaçar o símbolo da Redenção e da esperança dos cristãos.

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¹ 1Cor 1,18: “A linguagem da Cruz… para aqueles que se salvam, para nós, é poder  de Deus”.

Gl 6, 14: “Não aconteça gloriar-me senão na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

1 Cor 1, 17: “(…) anunciar o  Evangelho, sem recorrer à sabedoria da linguagem, a fim de que não se torne inútil a Cruz de Cristo”.¹ As cruzes eram geralmente de pouca altura, de modo que as feras podiam atingir o cadáver. Mas, quando os juízes desejavam dar um castigo “exemplar”, punham em relevo o crucificado, erguendo-o numa cruz  alta.

¹ Os romanos dividiam o dia em quatro “horas” ou quatro períodos de três horas cada um: a 1ª. Hora (das 6h às 9h), a 3ª. Hora (das 9h às 12h), a 6ª. Hora (das 12h às 15h), e a 9ª. Hora (das 15h às 18h).

² Ver a parábola dos operários chamados à vinha em diversas horas do dia, conforme Mt 20, 1-16.

³ Narra-se que Constantino, tendo de enfrentar militarmente seu rival Maxêncio, viu nos céus uma cruz luminosa acompanhada dos dizeres: En touto nika (Por este sinal vencerás). Em consequência, Constantino colocou a sua pessoa e o seu exército sob a proteção do sinal salutífero da cruz e desbaratou Maxêncio numa batalha sobre a ponte Milvia.

¹ Em caracteres gregos, Cristo escreve-se XPICTOC. A fusão da primeira e da segunda letras dá o símbolo acima.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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