A cruz, sinal do cristão – EB (Parte 1)

24eventos001Em síntese: Alegam as Testemunhas de Jeová que a Cruz é um símbolo pagão introduzido no século IV no uso dos cristãos. – Ora tal afirmação fere a documentação mais antiga do Cristianismo, a começar pelos textos bíblicos, que louvam e exaltam a Cruz de Cristo: Mt 10, 38; 16, 24; Mc 8, 34; Lc 9, 23; 14, 27; Gl 2, 19; 6, 12.14.

Logo nos séculos II/III temos notícia de que os cristãos se persignavam com o sinal da Cruz; ver Tertuliano, Hipólito, cujos textos são transcritos no corpo deste artigo. Os mártires se muniam com esse sinal antes de enfrentar a luta final.

Na arte cristã a sepultura dos Aurélios em Roma, onde aparece a figura de um homem apontando para uma cruz em atitude de respeito. Visto que a Cruz era instrumento de suplício dos malfeitores, os cristãos foram sóbrios em suas representações gráficas até o século IV; usavam os símbolos da âncora, do tridente e do T (tau) para indicar a Cruz de Cristo vitorioso. Somente após a conversão de  Constantino (+ 337) a cruz deixou de ser patíbulo de condenação  dos criminosos na vida do Império; tornou-se  então unicamente o símbolo da vitória de Cristo e o sinal dos cristãos, reproduzindo de muitas maneiras na arte, na Liturgia, na piedade particular, na literatura (…).

As Testemunhas de Jeová negam que a Cruz seja o sinal do cristão, pois dizem que é um símbolo pagão em uso nos diversos pré-cristãos como ornamento ou como instrumento de suplício. Ademais afirmam que Jesus não foi pregado a uma cruz de braços, mas a um simples poste ou estaca (staurós). Além disto, asseveram que os instrumentos de tortura dos criminosos (lenho, pedra, espada, cordames…) eram enterrados como algo de abominável, que não deveria, de modo nenhum, ser venerado. Com estas sentenças, as Testemunhas querem criticar e condenar a estima que os cristãos, desde os tempos de São Paulo,¹ dedicam à Cruz de  Cristo.

Vejamos, pois, com objetividade o que a história nos diz a respeito da Cruz.

No mundo pagão: a cruz

A cruz ocorre no uso dos povos antigos, seja como ornamento, seja como instrumento de suplício.

Ornamento

Na Assíria, certas imagens apresentam os reis, como, por exemplo, Assurnasirpal e Samsiramman, trazendo uma cruz pendente do pescoço. A cruz era o mais simples e natural dos ornamentos geométricos, pois consta apenas de duas linhas postas em transversal.

Também se usavam brincos em forma de cruz, pendentes das orelhas, como atestam alguns túmulos púnicos descobertos em Cartago. Ver p. 366, n.1.

No Egito usava-se o tau (em forma de T) portador de uma alça ou do sinal ank; podia pender de um colar. O símbolo ank foi tido como símbolo fálico – hipótese arbitrária que caiu em descrédito; parece que indicava o sol (pois tinha a forma arredondada), sol que era considerado como a fonte de toda a vida sobre a  terra. Ver p. 366, n. 1.

Encontra-se também a cruz gamada ou a cruz svastika, de origem incerta. Muito espalhada entre diversos povos, parece ter sido um emblema religioso característico da raça indo-germânica. Simbolizava o sol. Os Vedas a chamam “a  roda inflamada”.¹

A Cruz de Malta também era frequente. Estava ligada ao culto do sol. Mais tarde, tornou-se símbolo do poder régio, visto que o sol é o rei dos astros e o mais benfazejo de todos.

Em suma, a cruz era um sinal muito espontâneo e polivalente entre os povos antigos, até mesmo no México e na América Central.

Instrumento de suplício

Originariamente a tortura dos condenados se fazia mediante uma estaca fincada na terra e terminada em ponta; chamava-se em grego staurós e em latim acuta crux.

Posteriormente, porém, (ainda antes de Cristo) acrescentou-se a essa estaca vertical uma trave horizontal, à qual era fixado o réu, seja mediante pregos, seja mediante cordas. A estaca era dita  ‘es em hebraico; nota-se, porém, que tal vocábulo foi traduzido, na versão dos LXX (200 a.C. aproximadamente) por xýlon dídymon, isto é, lenho duplo ou geminado (o que mostra que o instrumento usual já era a cruz de dois braços); cf. Js 10, 26s (a Bíblia de Jerusalém usa  o termo árvore!).

Leia também: A cruz, sinal do cristão – EB (Parte 2)

Por que a Cruz?

Pode-se adorar a santa cruz?

Quando a cruz tinha dois braços, o posto vertical e maior já se encontrava fincado na terra; o supliciado levava o poste  menor, ao qual era preso quando chegava ao lugar do suplício; essa  trave era posteriormente suspensa ao lenho vertical.

Distinguiam os romanos a crux sublimis (de certa altura) e a crux humilis (menos alta), usual no caso em que o réu era também condenado a ser devorado pelas feras (ad bestias) enquanto pendia da  cruz.

A trave menor transversal podia ter dois formatos:

– a furca, arqueada. O escravo condenado carregava a furca sobre os ombros, enquanto caminhava confessando em voz alta o seu delito. Esta penalidade costumava ser precedida pela flagelação, que em alguns casos era prolongada até matar o réu;

– o patibulum, ou seja, a trave com que se trancava a porta de casa. Era também posto sobre os ombros do condenado.

Muitas vezes acrescentava-se à trave vertical, o cornu, isto é, um pedaço de madeira, que era afixado ao poste  vertical na altura, do traseiro do réu, a fim de que aí se apoiasse e não morresse tão rapidamente, vítima de asfixia.

Sabemos que muitos povos antigos costumavam punir os delitos mais graves com a morte de cruz. Os persas a utilizavam; o costume passou para o Império de Alexandre Magno, que em 331 venceu os persas, dando origem à cultura helenística, que recobriu o Império greco-romano. Os cartaginenses puniam os reis, nacionais e estrangeiros, com a cruz. Parece que foram eles que transmitiram o costume aos romanos, os quais, por sua vez, o fizeram chegar à Palestina nos tempos de Alexandre Janeu (67 a.C.), rei de Judá impregnado de cultura helenística. Os romanos aplicavam o suplício da cruz aos piratas, bandidos e rebeldes; era dito supplicium servile, porque, ocasionalmente aos cidadãos romanos, apesar dos protestos de Cícero.

Como se fazia a crucifixão?

Geralmente o réu condenado à crucifixão passava por dois tormentos prévios: era flagelado e carregava a furca ou o patibulum até o lugar da crucifixão. A haste vertical, como dito, já se encontrava fixa na terra ou era fincada pouco antes da execução do suplício; havia mesmo campos de hastas verticais à espera dos réus, que seriam suspensos depois de presos à trave horizontal.

Não se acha  em nenhum texto da antiguidade a notícia de que o condenado levava a cruz inteira. Esta façanha seria muito difícil ou mesmo impossível, dado o peso da cruz e visto que o réu já estava debilitado pela flagelação anterior. Até um homem sadio e forte teria dificuldade em realizar tal façanha, que de resto poderia levar muito tempo. Donde se vê que a expressão “carregar a cruz” é um figura de linguagem (sinédoque), que mencionava o todo implicado por uma de suas partes.

O “caminho da cruz” era seguido por populares, que escarneciam o réu.

Chegando ao lugar do suplício, o condenado era fixado à trave horizontal deitada por terra e, a seguir, erguido e  preso à trave vertical. Se esta fosse muito alta, os carrascos usavam cordas  ou escada. Os pés do réu eram presos à haste vertical mediante cordas  ou pregos. Há autores que supõem tenha havido um suporte ou suppedaneum de madeira debaixo dos pés, a fim de evitar a morte rápida por asfixia violenta devida ao peso do corpo suspenso pelos braços.

Os réus crucificados podiam sobreviver longamente, às vezes durante um dia e uma noite ou até durante três dias.

A causa imediata da morte era a asfixia. O sangue não conseguia chegar ao cérebro através do organismo suspenso no patíbulo; concentrava-se nos pulmões e acabava impedindo as pulsações do coração. Os condenados à cruz era vigiados por soldados antes e depois da morte. Os  cadáveres ficavam expostos na cruz às feras e às aves.

Podiam ocorrer ainda outras  práticas no processo da crucifixão. Os judeus prisioneiros na guerra de 66-70, contra os romanos, foram crucificados em posições diversas. Em alguns casos, os réus pendiam da cruz, de cabeça para baixo. A outros se acelerava a morte mediante fogo, fumaça, fratura das pernas ou golpe de lança. Os cadáveres podiam ser entregues aos familiares que os pedissem.

A crucifixão de Jesus

Estes dados históricos contribuem para ilustrar o suplício sofrido por Jesus no Calvário.

1.Os antigos perguntavam por que o Senhor quis padecer tão doloroso tipo de morte. E apontavam razões diversas, entre as quais se destaca aquela que Latâncio (início do séc. IV) apresenta: o Senhor quis recobrir com a sua morte extremamente dolorosa e ignominiosa, toda modalidade de morte que os homens possam experimentar; saibam todos  que Deus feito homem já atravessou e santificou todas as angústias  que afetam os homens (Instituições  IV, 26), e abracem a sua cruz com ânimo confiante  e esperançoso; quem padece com Cristo, ressuscitará com Cristo.

Outra razão clássica é o desígnio divino de “recapitular” tudo em Cristo (cf. Ef 1, 9s): o 2.º Adão quis percorrer o caminho do 1.º Adão para a morte, mas numa atitude de amor e entrega ao Pai, em resgate do desamor e da desobediência do 1.º Adão; o sinal negativo que marcava a morte e seus precursores (as dores da  morte) foi assim convertido em sinal positivo; a morte tornou-se o caminho que leva a nova vida e não à ruína definitiva. Ademais, como o primeiro Adão pecou mediante o lenho proibido no paraíso, o segundo Adão quis fazer do lenho (da Cruz) o instrumento de resgate do primeiro Adão; o homem que se precipitou na morte  mediante o lenho, encaminha-se para a plenitude da vida mediante o lenho (da Cruz).

2. Procuremos agora  reconstituir os pormenores da crucifixão de Jesus.

É de crer que a cruz de Jesus fosse alta, pois, para oferecer-lhe a esponja com vinagre, os soldados tiveram que utilizar um caniço (cf. Jo 19, 20); os pés do Crucificado, portanto, deviam estar a 1 metro ou 1m 50cm acima do solo;¹ a parte enterrada no solo devia medir 1m de profundidade. A cruz de Jesus não devia ser a cruz commissa (em forma de tau, T), mas a crux immissa ou capitata (munida de um topo de madeira), pois a inscrição “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus” se achava acima da cabeça de Jesus (cf. Mt 27, 37; Lc 23,38; Jo 19,19). Isto quer dizer  que a Cruz de Jesus tinha quatro extremidades.

Jesus deve ter carregado a cruz vestido, pois lemos em Mt 27, 31: “Depois de caçoarem de Jesus, despiram-lhe a capa escarlate e tornaram a vesti-lo com as suas próprias vestes, e levaram-no para O crucificar” (Mc 15,20). Depois de o crucificarem, os soldados repartiram entre si as vestes de Jesus (cf. Jo 19,23s). Assim procedendo, os romanos se adaptaram aos sentimentos de pudor dos judeus. Poder-se-ia daí concluir que Jesus pregado à Cruz não estava totalmente desnudo; todavia vários antigos escritores, atendo-se ao costume dos romanos, julgavam que Jesus esteve, sim sem veste alguma pregado à Cruz.

Jesus foi fixado primeiramente à trave horizontal da Cruz, que Ele carregara sobre os ombros; depois disto, foi erguido e preso à haste vertical já fincada no solo do Calvário. É de crer que se tenha aplicado um prego a cada mão e a cada pé, portanto quatro pregos, como os representava a antiga arte cristã até o século XIII. A crucifixão deve ter ocorrido não na palma da mão, mas no carpo de cada braço, parte mais resistente ao peso do corpo que pendia.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 351 – Ano 1991 – p. 364

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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