A Ciência desafia e sufoca a Religião? – Parte 1

Revista “PERGUNTE E
RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 425 – Ano: 1997 – pág.
434

Em síntese:  duas folhas volantes foram enviadas a PR
ridicularizando a Religião em nome do progresso da ciência.  Os cientistas estariam dando o golpe fatal às
crenças religiosas. – A resposta dissipa tal impressão; já se passou a época em
que os homens juravam pelo cientificismo, como se a ciência fosse a chave para
elucidar todos os mistérios e responder a todas as indagações da
humanidade.  A ciência bem conduzida é
muitas vezes aceno a uma inteligência Superior, criadora do mundo e do
homem.  Do seu lado, a fé bem entendida
nada tem a opor às verdades científicas; Deus é a fonte de toda verdade, quer
científica, quer religiosa.  Assim se
conciliam entre si criação e evolução, aceita-se a existência de habitantes em
outros planetas, distinguem-se dos aparentes milagres os verdadeiros milagres
ainda hoje ocorrentes e devidamente crivados pelos cientistas; a vida una ou
indivisa bem compreendida e vivida é alto testemunho de amor ao Senhor Deus e
ao próximo.

Chegaram à redação de PR
duas folhas volantes que, a vários títulos, pretendem impugnar a religião e, de
modo especial, a fé católica. Argumentam principalmente em nome da ciência como
es esta, em seu progresso constante, estivesse em condições de esvaziar e
remover as proposições da fé.  Tais
escritos, redigidos com certa erudição, podem impressionar os leitores.  É o que justifica uma resposta objetiva e
tranqüila ao questionamento apresentado. – Distinguiremos cinco pontos a ser
discutidos.

Ciência e Fé

O autor assim começa as suas
contestações :

Seres Abortivos

Hoje em dia a ciência acua
as religiões de tal maneira que estas parecem estar a ponto de pedir arrego.  O conhecimento empírico e sua divulgação
progrediram tanto que a maioria dos povos se pergunta: “Como é possível que
ainda persistam as bobagens e infantilidades das religiões ?” …

A ciência nos mostra a  realidade magnificente do nosso universo com
100 bilhões de galáxias, cada uma com 100 ou mais bilhões de estrelas. Mas tal
ou tal cristão, por exemplo, morrerá teimando que só existe um muito defeituoso
sistema solar, onde um diminuto planeta Terra abriga toda a humanidade, que um
Deus malvado criou para seu divertimento masoquista.

Os cientistas (vade retro!),
não obstante, são muito perturbadores, Charles Darwin, por exemplo, nos fala
dos interesses “órgãos abortivos”.  Estes
são órgãos que em alguns casos são adequados a um determinado propósito e em
outros casos são considerados totalmente inúteis.  Ele cita os dentes no rinoceronte, na baleia
e no narval, ossos sobre a tíbia, músculos que não se movem, pequeno osso alado
em Apteryx, ossos representando extremidades em algumas serpentes, pequenas asas
sob as partes soldadas nos coleópteros, tetas no homem e no touro, filamentos
sem anteras nas plantas, simples escamas que representam pétalas nas
flores.  Darwin comenta: “Ninguém pode
parar para refletir sobre estes fatos sem se espantar, pois nada pode ser mais
claro do que as asas serem feitas para voar, os dentes para morder, e, contudo,
encontramos estes órgãos perfeitos, em cada detalhe, em situações nas quais,
provavelmente, não têm o seu uso normal”.Se acreditamos na evolução
das espécies e não na criação divina, estes órgãos abortivos seriam o resultado
de infinitas alterações nas quais alguns órgãos se tornariam inúteis.  Mas Deus não interveio aqui para nada. “Deus
não pode errar”.

Veja bem. Calcula-se que
existem no planeta Terra de 5 a
30 milhões de espécies de animais e plantas. 
A extinção de espécies acontece naturalmente desde o surgimento da vida
no planeta.  A religião não pode explicar
esta exuberância excessiva nem muito menos a extinção, num mundo organizado
essencialmente para o destino do homem e sua alma … É um desperdício
impróprio de um planejamento divino, como é um desperdício por falta de um
critério inteligente, por exemplo, a ovulação da mulher.  Não encontramos por lado nenhum a mão de Deus
e sim a presença da natureza, quase sempre magnífica, mas que também comete
“erros” flagrantes como, por exemplo, a construção de um Sistema Solar com 1
planeta habitado e 8 planetas e 61 satélites desabitados (Este fenomenal
absurdo bastaria para concluir pela inexistência de Deus)…

A natureza e não Deus é
também culpada pela explosão freqüente das “supernovas”, levando talvez com
elas centenas de planetas habitados, como supunha o saudoso astrônomo-pensador
Carl Sagan.

Em resposta observemos :

A concepção segundo a qual
ciência e fé são incompatíveis entre si é do século passado e se acha
atualmente superada.  Com efeito,

a) de um lado, o
cientificismo do século XIX e do começo do século XX atribuía à ciência a
capacidade de desvendar todos os mistérios e responder a todas as indagações do
homem.  O sonho, porém, se dissipou.  Atualmente verifica-se que cada descoberta da
ciência suscita novas questões e parece abalar certezas anteriores: o mito da
“ciência, chave para todos os problemas” cede à prudência e cautela dos sábios
de nossos dias.  Aliás, em vez de se opor
à fé, o progresso da ciência parece fundamentar cada vez a crença em Deus Criador do
universo e responsável pela sua ordem; numerosas descobertas nos setores da
lingüística e da literatura antigas, da arqueologia e da palentologia confirmam
a autenticidade e veracidade dos textos bíblicos, de modo que se pode dizer que
“a pouca ciência afasta de Deus e a muita ciência leva a Deus”.  A propósito podem-se citar várias obras de
cientistas que professam a fé, entre as quais a coletânea de diálogos de Jean
Guitton com os cientistas russos Grichka e Igor Bogdanov (o original francês
tem por título “Dieu et la
Science”, Editions Bernard Grasset, Paris 1991, com síntese e
comentários em PR 359/1992, pp. 146-155).

b) De outro lado, a religião
católica “amadureceu” no sentido de que compreende que na Bíblia existem
gêneros literários, ou seja, modos de falar que nem sempre devem ser formados
ao pé da letra; o melhor conhecimento do Oriente antigo (Babilônia, Assíria,
Fenícia …) e do Egito permitiu recolocar o texto bíblico no seu contexto de
origem, dando a ver certas particularidades de linguagem oriental que até o
século passado eram entendidas literalmente e que na verdade são
expressionismos metafóricos.  Exemplo
típico desse melhor entendimento da Bíblia Sagrada é o caso dos três primeiros
capítulos do Gênesis; já não são compreendidos atualmente como cartilha de
ciências naturais; propõem uma visão filosófica e não uma lição de
cosmologia.  Tem-se consciência de que a
Bíblia não pretende ensinar Física, mas sim Meta-física (o que está além do
Físico ou o Transcendental).  Isto não
implica mudança do Credo, mas mudanças na hermenêutica bíblica, que não afeta
os artigos do Credo.

Em conseqüência, o cristão
hoje pode tranqüilamente acompanhar a trajetória da ciência sem ter a sua fé
abalada, pois ele sabe que a fé não entra no setor das ciências retamente
cultivadas e vice-versa; em vez de antagonismos, há complementação de parte a
parte.  Eis o que a propósito escreve o
Concílio do Vaticano II:

“Se a pesquisa metódica, em
todas as ciências, proceder de maneira verdadeiramente científica e segundo as
leis morais, nunca será oposta à fé; tanto as realidades profanas quanto as da
fé originam-se do mesmo Deus.  Aquele que
tenta perscrutar com humildade e perseverança os segredos das coisas, ainda que
disto não tome consciência, é como que conduzido pela mão de Deus, que sustenta
todas as coisas, fazendo que elas sejam o que são” (Constituição Gaudium et
Spes nº 36).

Passemos agora ao segundo
ponto controvertido.

Criação e Evolução

Não há oposição entre
criação e evolução quando se trata de expor a origem do mundo e do homem.  O texto de Gênesis 1-3 quer indicar não a
fenomenologia das origens, mas o significado do mundo e do homem:  são criaturas boas de um único Deus, que é
bom e criou a partir do nada para comunicar suas perfeições.  A fé sabe conciliar tranqüilamente criação e
evolução entre si, conforme o seguinte esquema:

 

 

    Ato criador                       Evolução                                    Ato criador

 

                                                                                                           

      Alma espiritual

Matéria inicial                                                                                             +

Católica,
informe        minerais        vegetais         animais                 corpo

                                                                    
Irracionais               organizado

 

                                                                                                         

                                                                                                              HOMEM

                                                                                                            MULHER

 

Isto quer dizer: a matéria
não é eterna; por isto começou mediante um ato criador de Deus, que a tirou do
nada e lhe terá dado as leis de evolução. 
Assim orientada pelo Criador, a matéria inicial ter-se-á  desenvolvido, produzindo os reinos mineral,
vegetal e animal irracional, todos estes elementos são meramente materiais e,
por isto, podiam estar contidos na potencialidade da matéria primitiva.  Quando a matéria do primata estava devidamente
organizada para ser sede da vida humana ou de uma alma espiritual, ocorreu novo
ato criador de Deus para dar origem ao espírito, que é algo de totalmente novo
em relação à matéria e não pode provir desta por evolução.  Assim Deus criou e infundiu a alma humana de
cada um dos primeiros homens, como ele cria e infunde na matéria a alma de cada
criancinha que venha ao mundo até hoje. 
Não há diferente origem para o homem e a mulher.  Assim se conciliam criação e evolução.  Tal esquema atende às exigências mínimas da
fé e da sã razão no tocante às origens do mundo e do homem.  A ciência nada tem a lhe opor, porque ela
versa sobre objetos concretos e experimentais, deixando à filosofia e à
teologia o campo livre para a reflexão.

O fato de que há “órgãos
abortivos” não depõe contra a sabedoria divina. 
Ao contrário, bem mostra que Deus rege a evolução, deixando as criaturas
seguir seu curso natural, de modo que ficam os vestígios da evolução nas
espécies mais evoluídas.  A perda de
óvulos e espermatozóides é testemunho da riqueza da vida criada por Deus; não é
perda de seres humanos (como ocorre nos casos de feticídio praticados por
certos profissionais).

Habitantes em outros
planetas

A fé católica não se opõe à
hipótese de haver outros planetas habitados. 
A Revelação Divina não se manifestou a respeito, deixando à ciência a
tarefa de investigar a questão. Vários teólogos católicos julgam muito
conveniente a existência de seres inteligentes em planetas fora da Terra, pois
tanta matéria harmoniosamente disposta pelos espaços cósmicos postula a
presença de seres inteligentes, capazes de tomar consciência dessas maravilhas
e louvar o Criador em nome das criaturas inferiores.  É, por exemplo, o que afirma o Pe. Joseph
Pohle S. J. (+ 1922) na obra Die Sternenwell und thre Bewohner, p. 457:

“Parece absolutamente
conforme ao fim último do Universo que os corpos celestes habitáveis sejam
povoados de criaturas que referem à glória do Criador a beleza corporal dos
seus respectivos mundos, exatamente como o homem o faz na Terra”.

Já em 1877 escrevia o Pe.
Secchi :

“A nós parece absurdo
considerar essas vastas regiões como desertos despovoados; devem ser habitados
por seres inteligentes e racionais, capazes de conhecer, homenagear e amar o
seu Criador” (Le Soleil, Paris 1877, vol. II, p. 480).

O qualificativo absurdo
voltava ainda recentemente sob a pena de Bavink :

“Se todo esse universo deve
ter sentido, parece-me de todo absurdo procurar esse sentido unicamente na
nossa historiazinha terrestre” (Risultati e Problemi delle Scienze Naturali.
Firenze 1947, p. 272).

As viagens ao espaço (à Lua,
à Marte…) nada têm que contradiga aos princípios da fé católica.  Se Deus concedeu ao homem a inteligência e as
faculdades para as realizar, não há por que não tentar tais façanhas.  Contudo saiba o homem que ele não é Deus, mas
criatura de Deus, que deve prestar contas de seu comportamento ao Supremo Juiz.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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