A busca de um consenso moral

Um novo
livro busca superar o partidarismo

Pe. John
Flynn, LC

ROMA,
domingo, 5 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) – As discussões morais e políticas
frequentemente enfocam as divisões e conflitos e não o que existe em comum. Segundo Carl
Anderson, presidente da organização católica Cavaleiros de Colombo, isso é um
erro.

Em seu
recente livro, “Beyond a House Divided: The Moral Consensus Ignored by
Washington, Wall Street and the Media” (“Para além de uma casa
dividida: o consenso moral ignorado por Washington, Wall Street e a
Mídia”), Anderson duvidou da utilidade de uma análise da América do Norte
com base nas categorias da direita contra a esquerda ou de Estados vermelhos
(os estados que votam mais no Partido Republicano) contra os Estados azuis (que
votam mais no Partido Democrata).

Durante os
últimos dois anos, os Cavaleiros de Colombo analisaram as visões e valores da
população através de uma série de pesquisas. Os temas abordados incluíram
casamento e divórcio, aborto, eutanásia, casamento homossexual e o papel da
ética nos negócios e na política. Segundo Anderson, as entrevistas têm
encontrado uma unidade surpreendente entre muitos norte-americanos com base em
valores morais e éticos.

A mídia
apresenta a América em tempo de crise – seja uma crise econômica, uma crise de
guerra ou uma crise de imigração -, mas sob o impacto econômico, social e
político está uma crise moral. Mais de dois terços dos americanos acreditam que
a moralidade do país tem tomado uma direção errada, disse Anderson.

Esta é a
principal causa da desilusão das pessoas com relação às instituições e partidos
políticos. “Os políticos e os meios de comunicação veem um mundo de
esquerda e direita”, observou Anderson. Em contraste, “os americanos
veem o mundo do bem e do mal”.

Como outros
comentaristas têm observado sobre o norte-americano contemporâneo, Anderson
mostrou que o país tem um elevado nível de prática religiosa e que muitos dos
debates sobre questões sociais e políticas são enquadrados em termos morais ou
religiosos. Cerca de 80% das pessoas disseram que a religião é uma parte
importante de suas vidas, e mais de três quartos sustentaram que o matrimônio,
o respeito pelos outros e a responsabilidade pessoal são subestimados.

O bem e o
mal

Voltando à
crise econômica duradoura, Anderson disse que muitas pessoas perderam as suas
poupanças e pensões, ou foram forçadas a deixar suas casas. No entanto, na
maioria dos casos, nenhuma lei foi violada e ninguém foi responsabilizado. É um
problema de legislação inadequada ou, mais fundamentalmente, a falta do bem e
do mal, uma falência moral por parte dos investidores e gestores de dinheiro?

Uma
pesquisa mostrou que 92% das pessoas acreditam que a ganância foi o principal
fator que causou a crise econômica. Apesar disso, os dois principais partidos
políticos se concentraram em mais regulamentações e mais legislação, ignorando
o consenso de que foi um problema que não pode ser resolvido apenas com mais
leis.

A ganância
pode sempre encontrar uma outra escapatória, comentou Anderson, razão pela qual
limitar a solução apenas à criação de meios legais significa que estamos
condenados a um interminável jogo. O que as pessoas querem hoje é um apelo à
moralidade por ambos os líderes, econômicos e políticos, acrescentou.

A natureza
humana é capaz de ambos, a cobiça e o altruísmo, afirmou Anderson. Por isso, é
necessário ir além de um sistema econômico baseado exclusivamente em interesse
próprio. É preciso, no entanto, desafiar as pessoas de pensar sobre as
consequências de suas ações.

A
preocupação com o bem comum e a prática da virtude ajudaria muito a garantir um
sistema em que o lucro não seja à custa dos outros, disse Anderson.

A
esmagadora maioria das pessoas quer que as decisões empresariais sejam
orientadas por escolhas morais. Cerca de dois terços dos americanos acreditam
que os valores religiosos têm o seu lugar na hora de influenciar as decisões
dos executivos, e até mesmo um número maior de executivos – 70% – concordou com
isso.

Uma
situação similar existe na política. A maioria das pessoas está cansada de
querelas políticas e acredita que os políticos perderam o contato com o povo.
“A questão da polarização política não é um problema para a maioria de
nós, embora seja para muitos políticos e peritos; não somos totalmente
vermelhos ou totalmente azuis”, observou Anderson.

Descontentamento

Além disso,
mais de 80% das pessoas acham que os políticos estão tendo a bússola moral da
nação na direção errada – um elevado nível de insatisfação também em relação à
mídia e à indústria do entretenimento.

Os
americanos tendem a favorecer um papel limitado do governo, não só por causa de
uma preferência de sempre pelo indivíduo, mas também pela convicção de que a
elite de Washington não concorda com os valores éticos da maioria da nação,
constatou Anderson. Não é difícil para os políticos descobrir quais são os
valores e as preocupações das pessoas: precisam apenas ouvir, afirmou.

Um tema que
tem causado divisão há anos é o aborto. Na superfície, parece que o debate é
uma amarga divisão entre a postura pró-vida e atitude a favor do direito de
decidir.

As
pesquisas mostram, entretanto, uma clara preferência por uma lei do aborto que
seja mais restritiva do que a situação atual, na qual não há limites na hora de
realizar abortos. Cerca de 80% dos americanos estão a favor de uma situação em
que o aborto seja limitado ao primeiro trimestre, observou Anderson. Apenas 16%
dos homens e 11% das mulheres dizem que o aborto deveria ser legal a qualquer
momento.

Assim, em
vez de um choque de posições absolutas há, de fato, um grau surpreendente de
consenso. “Esse consenso moral – de que o aborto pode e deve ser restrito
– deve ser o ponto de partida para resolver o impasse político do aborto”,
disse Anderson.

Em outro
tema quente do debate – o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo -,
as reportagens da mídia dão a impressão de que a opinião pública está dividida
ao meio. A pesquisa dos Cavaleiros de Colombo revela, no entanto, que, quando
recebem uma gama completa de opções – “casamento” de pessoas do mesmo
sexo, uniões civis ou a negação de reconhecimento legal -, 38% são a favor de
não dar qualquer tipo de reconhecimento legal, 28% apoia as uniões civis e,
dessa forma, quase dois terços discordam de uma redefinição do casamento.

Este apoio
à visão tradicional do casamento é evidente no fato de que os eleitores em 31
estados apoiaram as alterações que definem o casamento como somente entre um
homem e uma mulher, disse Anderson. Em todos os lugares onde o casamento entre
pessoas do mesmo sexo foi legalizado, isso ocorreu por decisões de juízes ou
políticos, e não pelo público.

As atuações
jurídicas precipitadas, como aconteceu com o aborto no caso Roe versus Wade,
seriam um grave erro, advertiu Anderson, e levariam a mais divisões que as
existentes atualmente no debate nacional sobre o tema do casamento homossexual.

Divisão

No capítulo
final do livro, Anderson mostra que é inegável que existe uma divisão de
valores entre os americanos e os que estão no governo. Há também uma divisão
entre o consenso da maioria dos cidadãos em muitas questões, e a tendência
habitual da mídia a apresentar o debate como um conflito entre as posições
extremas.

O regresso
a valores morais tradicionais como meio de resolver as crises econômicas e
sociais do nosso tempo é o caminho no qual aposta a grande maioria dos
americanos. “Somos um povo unido por valores, uma nação que respeita
aqueles que doam seu tempo para os outros e as organizações que facilitam essas
atividades”, disse Anderson.

Chegou a
hora de que os políticos vejam este consenso e vão além do impasse que
caracteriza os debates sobre várias questões, insistiu.

Anderson
também sugeriu que o debate sobre questões de política econômica ou social seja
caracterizado por um maior grau de caridade, respeito e cortesia. Em geral,
este pequeno livro, de apenas uma centena de páginas, lança um apelo a
reconhecer a base de sólidos valores que continua unindo a maioria dos
americanos.

Na
internet: “Beyond a House Divided”:
http://www.amazon.com/Beyond-House-Divided-Consensus-Washington/dp/030788774X

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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