A astrologia

O Prof. Marcelo Gleiser faz o histórico da astrologia
e mostra que não pode ser tida como ciência nem ser regulamentada para dar
suporte à pretensa profissão de astrólogo.

 Ainda a propósito de astrologia-horóscopo parece oportuno
considerar as ponderações do prof. Marcelo Gleiser, que leciona Física Teórica
no Dartmouth College (EUA); escreveu o artigo que segue após ter sido publicado
na FOLHA DE SÃO PAULO aos 26 de julho de 2002.

 Profissão: Astrólogo?

 Durante minha recente visita ao Brasil, fiquei sabendo do
projeto de lei nº 43 de 2002, de autoria do senador Artur da Távola (PSDB-RJ),
que visa a regulamentar a profissão de astrólogo. Tendo em vista que o senador
foi membro de comissões especiais que elaboraram importantes leis e estatutos,
incluindo a lei de defesa do consumidor e a lei de diretrizes e bases da
educação nacional, confesso que fiquei muito surpreso e decepcionado com o
projeto.

 Ao ler a justificativa para tal proposta, minha decepção
transformou-se em choque: o projeto propõe que a astrologia seja ensinada nas
universidades, incluindo graduação e pós-graduação, com currículo regulamentado
pelo MEC. Segundo o texto do projeto, a sua elaboração contou com
“pensamentos e caracterizações de autores ligados à práxis, mantendo-se o
pragmatismo inerente a uma conceituação legal”. Aparentemente, nenhum
cientista foi consultado.

 Sem dúvida alguma, a astronomia deve muito à astrologia: já
os babilônios, dois mil anos antes de Cristo, olhavam para os céus em busca de
mensagens enviadas pelos deuses. O céu, sendo a morada dos deuses, era sagrado.
Os movimentos dos corpos celestes e das constelações eram interpretados como
sendo a escrita divina, carregada de significado e prognósticos para nós aqui
embaixo. Portanto, para os babilônios – e todas as outras culturas que olhavam
para cima em busca de mensagens e revelações -, os céus eram uma entidade sobrenatural,
regida pelo poder divino. Como os prognósticos dependiam da posição relativa
entre os planetas (os cinco conhecidos até então) e as 12 constelações do
Zodíaco, quanto mais precisas as medidas das posições dos corpos, mais
“precisas” seriam as previsões…

 O próprio Ptolomeu (século II d.C.) escreveu um tratado
dedicado à astrologia, o “Tetrabiblos”, no qual dizia que a prática
da astrologia “acalma a alma por meio do conhecimento de acontecimentos
futuros, como se eles estivessem ocorrendo no presente, e nos prepara para
receber com calma e equilíbrio o inesperado”. Ou seja, o aspecto mais
importante na prática astrológica é a sua capacidade de prever o futuro, para
que possa ser recebido de forma calma e equilibrada. Na linguagem mais moderna,
isso se chama “calcular os trânsitos”, usando as posições futuras dos
planetas para prognosticar o futuro.

 Santo Agostinho, no século 4º, condenou firmemente a
astrologia, pois ela interferia no livre-arbítrio e na onipotência divina: se
tudo está já escrito nas estrelas, nós não podemos optar pelo bem ou pelo mal e
a fé em Deus se torna irrelevante. A resposta oferecida pelos astrólogos de
então, muita usada ainda hoje, foi que “as estrelas não determinam, apenas
sugerem”.

 O ingrediente fundamental que estava faltando nos modelos de
Ptolomeu e outros era a física, que descreve as relações causais que regem os
movimentos celestes. Quando Galileu, Kepler e Newton desenvolveram as bases da
ciência moderna, descrevendo os movimentos celestes como sendo conseqüência da
força da gravidade, a astrologia começou a se divorciar da astronomia; em um Universo regido por
forças causais entre objetos materiais, não havia espaço para relações
sobre-naturais entre corpos celestes e pessoas que violassem o conceito mais
fundamental da física, a causalidade. Ou seja, é impossível, segundo tudo o que
conhecemos hoje sobre o Universo e as suas propriedades físicas, obter
informações sobre eventos futuros na vida de uma pessoa lendo os céus. Mais
ainda, não existe nenhuma evidência quantitativa de que planetas e estrelas
possam influenciar o comportamento de pessoas na Terra. A astrologia não é uma
ciência, é uma crença. O mesmo se aplica à quiromancia, à leitura de cartas de
tarô, à numerologia, aos búzios. Por que não regulamentar essas profissões,
ensiná-las nas universidades?

 Isso não significa que cientistas sejam bitolados ou
fechados para novas ideias. Muito pelo contrário: nós dedicamos a vida ao
desconhecido. Mas, em ciência, o processo de validação empírica é fundamental.
Tudo bem que as pessoas gostem de ler o seu horóscopo no jornal ou ter o seu
“mapa astral” analisado por um astrólogo. Isso até leva a uma
auto-reflexão, que pode ser muito positiva. Tudo bem que alguém  escreva
uma tese sobre astrologia, por exemplo, sob o tema história das religiões ou
arqueoastronomia. Mas regimental a astrologia em curso superior é uma volta ao
passado, quando o natural e o sobrenatural se misturavam sob o véu do medo, da
superstição e da ignorância.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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