A Alocução de João Paulo II aos 21.02.79

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, Osb
Nº 234, Ano 1979, p. 261

APÊNDICE

Apraz citar aqui um trecho da alocução proferida pelo S. Padre João Paulo II na audiência geral de 21/02/79, em alusão ao tema “libertação”. S. Santidade salientava então a índole clássica e perene deste vocábulo, que sempre esteve presente nos escritos da teologia e, por conseguinte, não é algo de novo nem de específico em nossos dias ou na América Latina. A libertação tem a sua fonte na verdade apregoada por Cristo:

“Foi para que ficássemos livres que Cristo nos libertou (Gl 5,11). Assim a libertação é certamente uma realidade de fé, um dos fundamentais temas bíblicos, inscritos profundamente na missão salvífica de Cristo, na obra da Redenção e no seu ensinamento. Este tema nunca deixou de constituir o conteúdo da vida espiritual dos cristãos. A conferência do Episcopado Latino-Americano testemunha que este tema volta em novo contexto histórico; por isto deve ele retomar-se na sua profundidade própria e na sua autenticidade evangélica.

A “teologia da libertação” é frequentemente relacionada (algumas vezes demasiado exclusivamente) com a América Latina é necessário, porém, dar razão a um dos grandes teólogos contemporâneos (Hans Urs von Balthasar), que justamente exige uma teologia da libertação de dimensão universal. Só são diversos os contextos, mas a realidade mesma da liberdade para a qual nos libertou Cristo, é universal. A missão da teologia é encontrar o seu verdadeiro significado nos diversos e concretos contextos históricos contemporâneos.

O próprio Cristo relaciona, de modo especial, a libertação com a consciência da verdade: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Esta frase garante sobretudo o significado íntimo da liberdade para a qual nos liberta Cristo. Libertação significa transformação interior do homem, que é conseqüência do conhecimento da verdade. A transformação é, portanto, processo espiritual, em que o homem se aperfeiçoa na justiça e na santidade verdadeira (cf. Ef 4,24). O homem, assim amadurecido internamente, torna-se representante e porta-voz dessa justiça e santidade verdadeira nos diversos meios da vida social. A verdade tem importância não só para o crescimento da consciência humana, aprofundando deste modo a vida interior do homem; a verdade tem ainda significado e força profética. Constitui o conteúdo do testemunho e requer um testemunho. Encontramos esta força profética da verdade no ensinamento de Cristo. Como Profeta, como testemunha da Verdade, Cristo opõe-se repetidamente à não-verdade; fá-lo com grande força e decisão e muitas vezes não hesita em deplorar o que é falso. Tornemos a ler cuidadosamente o Evangelho; nele encontraremos não poucas expressões severas, como, por exemplo, sepulcros caiados, guias cegos, hipócritas, expressões que pronuncia Cristo, consciente
das consequências que O esperam” (L’Osservatore Romano, ed. Portuguesa, 25/02/1979, p. 12).

As palavras do S. Padre João Paulo II, enfatizando, antes do mais, a libertação como conversão interior de todo homem, apresentam a autêntica maneira de se abordar o tão controvertido tema da “libertação”.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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