A Alma das Mulheres – EB

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 330 – Ano 1989 – p. 516

Em síntese: Há quem afirme que a Igreja menosprezou a mulher durante séculos, apelando, por exemplo, para o Concílio de Mâcon (Gália), que em 585 teria negado alma humana à mulher. Tal suposição é falsa; para tomar consciência disto, basta examinar as fontes da mesma;  verifica-se então que o Concílio como tal não tratou do assunto; por um historiador da época é que somos informados de que um Bispo teria perguntado se pode aplicar à mulher o termo homo. Naquela fase da história, homo em latim ainda era comumente atribuído à espécie humana como tal, sem distinção de sexo; o homem era dito vir, e a mulher femina. Homo (homem) seria um substantivo genérico, que alguns relutavam a atribuir ao sexo feminino.

Alegando que a Igreja durante séculos não valorizou devidamente a mulher, há historiadores que apelam para o Concílio de Mâcon (Gália) em 585; os Bispos reunidos teriam então discutido se a mulher tem ou não tem alma. Segundo o escritor Garcia Redondo, só
“por uma diminuta maioria” é que eles convieram em reconhecer à mulher a dignidade humana. Outros autores dizem que recusaram formalmente tal proposição. Visto que este tópico passa de boca em boca sem que os próprios narradores
saibam exatamente de que se trata, vamos abordar o assunto nas páginas
seguintes.

O Concílio de Mâcon (585)

O único fundamento das alegações acima é um trecho da Historia Francorum (História dos Francos) de S. Gregório de Tours, que, referindo-se ao Concílio de Mâcon, descreve o seguinte:

“Houve neste Sínodo um bispo que dizia não poder a mulher chamar-se homem. No entanto deu-se por satisfeito, quando os bispos lhe apresentaram as razões, recordando-lhe o que ensina o livro do Antigo Testamento, o qual diz que no princípio, quando Deus criou o homem, os criou varão e fêmea e lhes deu o nome de Adão, isto é, homem de terra e, dando embora à mulher o nome de Eva, os chamou homem e ambos. Aliás, Nosso Senhor Jesus Cristo é também chamado Filho do Homem, porque nasceu da Virgem Santíssima, que é uma mulher. Quando ele converteu a água em vinho, disse: “Mulher, que há entre ti e mim?” Graças a estes testemunhos e a vários outros, a questão ficou liquidada e a discussão terminou” (VIII, XX).

Este é o único depoimento pelo qual somos informados a respeito do incidente. As Atas do Concílio de Mâcon, que nos foram conservadas e que constam de vinte cânones (leis), dizem respeito aos principais deveres dos fiéis e do clero, e não fazem a mínima menção do episódio em pauta. Donde se deduz que este não deve ter ocorrido nas próprias sessões do Concílio, mas em conversas particulares, fora das sessões oficiais. Um único Bispo então levantou a questão: pode-se designar o sexo feminino pela palavra latina homo? Vê-se que não se tratava de uma questão teológica, mas de um ponto de vocabulário e linguística; na verdade, não se discutia a existência de alma nas mulheres.

Por conseguinte, a versão que até hoje é veiculada em conservas, lançando sobre a Igreja uma nota sombria, carece de fundamento na realidade. É amostragem muito significativa de como surgem lendas e estórias com aparência de historicidade, aptas a impressionar o público pouco informado sobre o assunto.

Procuremos entender melhor a dificuldade levantada pelo anônimo Bispo no Concílio de Mâcon.

O porquê do problema

1. O português, o francês, o italiano, o espanhol e outras línguas carecem de vocábulo próprio para designar genericamente todos os indivíduos humanos, abstraindo da diferença sexual. Por isto, tais línguas são obrigadas a usar o vocábulo que indica o indivíduo masculino (homem, homme, uono, hombre…) para designar a espécie humana. Dizemos, por exemplo: “o homem é um ser mortal”, tencionando designar com tal termo masculino (homem) também é mulher. Ao contrário, o latim, como também o grego, o alemão, possuem, além dos termos específicos (vir-femina, em latim; anérgyné, em grego; Man-Weib ou Frau em alemão) um termo genérico que designa todo e qualquer indivíduo pertencente à espécie humana: homo, ánthropos, Mensch. A existência de tal vocábulo é vantagem para as línguas que o possuem, pois aumenta a clareza da expressão, evita a confusão, e facilita o debate filosófico.

Acontece, porém, que nem sempre em latim se retinha o sentido genérico do vocábulo homo; era utilizado por vezes para indicar ou um indivíduo masculino ou mesmo um feminino. O primeiro destes empregos resultou em que homo nas línguas neo-latinas designa, primeiramente, o indivíduo masculino. Há exemplos, no latim clássico, de homo significando mulher, mas são raros; eram tidos como exceções (cf. Cícero, Pro Cluent. LXX; Ad Familiares IV V; Ovídio, Fast. V 620; Juvenal VI, 282; Plínio, Historia Natural XXVIII, IX, 33). Os gramáticos latinos toleravam tal uso, mas não permitiam que se atribuísse à palavra homo o  gênero gramatical feminino. Assim escreve Charisius:

“Heres, parens, homo, etsi in communi sexu intellegantur, tamen masculino genere semper dicuntir. Nemo enim secundam heredem dicit aut bonam parentem aut malam hominem, sed masculine, etsi de femina habeatur” (Ver Keil, Grammatci Latino, t. l, p. 102).

Simplificando: os gramáticos toleravam que se afirmasse “O homem é mortal”, tendo em vista o ser masculino e o feminino, mas não permitiam que se dissesse: “A homem é mortal”.
2. Ora acontece que os outros cristãos latinos da antigüidade faziam uso da liberdade concedida pelo gramático Charisius. Assim o próprio Gregório de Tours relata uma visita que ele fez a Ingeberga, viúva do rei Cariberto, dizendo:

“Accessi, fateor, vidi hominem timentem Deum, Qui cum me benigne excepisset…” (Historia Francorum IX XXVI). O que significa: “Aproximei-me, digo, e vi um homem (uma pessoa) que temia a Deus, o qual, após me Ter benignamente recebido (…)”.

Na linguagem feudal, homem era sinônimo de vassalo, de modo que se tornou freqüente o uso do vocábulo homem para designar a mulher-vassalo. Assim lê-se em Molanus, Historiae Lovanienses IV, 4: “Quod mulieres sint etiam homines Sancti Petri. – As mulheres são também vassalos (homens) de São Pedro”.

A Condessa Margarida da
Flândria escrevia a São Luís de França: “Sire, si vos requier com vostre
cousine et vostre hom”.

Entende-se agora qual o objeto da discussão de que fala S. Gregório de Tours, no Concílio de Mâcon. O Bispo em questão duvidava da legitimidade de um costume raro, mas autorizado pelos gramáticos, de se usar a palavra homo para designar um indivíduo do sexo feminino. Quando lhe mostraram, por exemplos tirados da Bíblia, que a sua crítica carecia de fundamento, o Bispo retirou seu questionamento e o caso não teve ulteriores sequelas.

Vê-se quanto é necessário que, ao falar de história, principalmente de História da Igreja, o cidadão contemporâneo se certifique daquilo que tenciona afirmar, a fim de não cometer um erro historiográfico e uma injustiça!

***
Ver:

CEREJEIRA, MANUEL GONÇALVES, A Igreja e o
Pensamento Contemporâneo, Coimbra 1928 (2a. ed.).

KURTH, GODEFROID, Femmes (Ame des), em Dictionnaire Apologétique
de la Foi Catholique,
vol. I, cols. 1897s. Paris  1925.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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